A química invisível da alma

A moda é uma tentativa de dar vida à arte.

— Francis Bacon

Há algo profundamente extraordinário na moda contemporânea.
Na arte que traduz o que vivemos e sentimos hoje — e em como escolhemos nos vestir.

Existe genialidade na travessia de um sentimento que deixa de ser abstrato e passa a existir em um botão, na textura de um tecido, na quantidade exata de volume de um babado. Pensar esse percurso — entre sentir, criar e vestir — dá sentido. Dá intenção. Dá voz.

Talvez esse seja o meu verdadeiro fascínio: compreender a raiz dessa genialidade. Entender o que — e por que — algo tocou alguém de forma tão profunda a ponto de se transformar em criação, em escolha, em posicionamento.
Algo extremamente consciente para quem cria, mas quase invisível para quem veste.
Uma voz tímida que decidiu falar sem recorrer às palavras.

A moda contemporânea é mais uma camada sobre tudo aquilo que já existiu — mas agora observado com outros olhos. Das formas primárias que sustentam o vestir — partes de cima, partes de baixo, peças inteiras — aos pequenos gestos: o desenho de uma gola, o peso de uma manga, a roda de uma saia.
Até um tecido acolchoado que remete a um travesseiro pode revelar o desejo silencioso de levar conforto, abrigo e segurança para o espaço público.

São detalhes mínimos que narram os desejos invisíveis do nosso tempo.

Talvez todos precisemos encontrar o nosso próprio toque.
E permitir que essa arte seja também uma forma de dizer — sem palavras — quem somos.

Porque, no fim, é isso que a arte faz:
ela sustenta aquilo que não sabemos explicar,
mas precisamos sentir

Fernanda Simões VitaliSentir